Se nos deixarmos visitar no deserto, podemos retornar ao paraíso

Estamos como Igreja, em um novo ano litúrgico, e São Mateus irá nos ajudar neste 2° Domingo do Advento do ano (A) da liturgia. O versículo que irá inspirar nossa reflexão de hoje diz: “Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor, endireitai suas veredas!” (3b).

O texto inicia dizendo que João Batista iniciou sua pregação no deserto, e daí, temos que fazer a nossa contextualização para compreender o que isso significa. Como no livro do Gênesis, o Autor Sagrado nos diz que no início da criação a terra estava deserta, vazia e sem forma. Diante da necessidade de recriação, a humanidade encontra-se em meio a solidão.

Adão, quando sai do Jardim do Éden, peregrina pelos desertos. A humanidade que se afasta de Deus se depara com a desolação, com o vazio. Porém, Deus vai ao encontro de seu povo, e o deserto vira também lugar do encontro pessoal com o Senhor e de salvação para o povo de Deus.

No hebraico, o termo deserto também significa ‘Palavra’. Deus, que é Pai apaixonado, mesmo quando o seus filhos se afastam de sua presença, trata de se aproximar e propor meios para que sejam reintroduzidos em sua presença. É sempre no deserto humano que o Verbo Divino vem se encarnar. Por meio da Palavra, o homem é preenchido e é salvo de seus vazios. Visitada pela Palavra, a pessoa humana é convidada a regressar para o paraíso verdadeiro e eterno que é a realização da vontade de Deus.

Quando o evangelista faz questão de dizer que João apareceu pregando no deserto, quer nos dizer coisas maravilhosa. O nome João, no hebraico significa ‘Deus derramou sua graça sobre o homem, Deus amou e agraciou seu povo’. Sabemos que João Batista era filho de Zacarias, e que seu nome significa ‘Deus se lembrou do homem’, ou seja, o Senhor toma a iniciativa de ir ao encontro de seu povo, de cada um de seus filhos, pois, em sua bondade Ele sempre se recorda deles e lhes oferece a graça de seu amor.

O eixo central da pregação de João Batista é: “Uma voz clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas”. Isaías, todavia, diz de forma diferente. O profeta disse “Abri no deserto um caminho para o Senhor, tração reta na estepe uma pista para nosso Deus” (Is 40, 3). Veja bem, não é uma voz no deserto, e sim um caminho. Quando, através do anúncio de João Batista, a Palavra do Senhor começa a ser proclamada no deserto, era a realização da promessa de Deus, contida em Isaías, “Alegrem-se o deserto e a terra seca, rejubile-se a estepe e floresça”, “Ali haverá uma estrada – um caminho que será chamado caminho sagrado” (Is 35, 1. 8).

Em Jesus Cristo, que é a Palavra de Deus o homem é visitado e convidado para voltar para junto de Deus. O termo “arrependei-vos” que o evangelista emprega na frase de João Batista, no hebraico, pode ser traduzido por ‘retornar’. Assim sendo, é fundamental compreender que Deus, por meio de sua Palavra, vem neste tempo do Advento nos visitar e convidar para regressar a sua presença, para viver em sua intimidade.

Assim, como no primeiro testamento, o deserto também foi uma prefiguração do caminho para a salvação, pois, como no êxodo ao saírem do Egito, e depois, o retorno do exílio no deserto, os israelitas alcançaram a liberdade, encontrando a estrada no deserto. Hoje, somos visitados pela Palavra para percorrermos o caminho que é Jesus. É Ele quem nos salva, e conduz a vida em abundância, a liberdade plena.

Façamos uma breve oração: Óh Deus, obrigado por vir ao meu encontro. Eu me deixo visitar em meus desertos. Quero hoje Senhor, deixar que vossa graça amorosa me transforme e me impulsione á ir ao teu encontro também. Vem Espírito Santo, me ajude á percorrer o caminho de transformação que é Jesus Cristo. Desde já te agradeço Senhor!

Texto: Emerson Alves